Um padre da periferia

O missionário da Consolata Gelindo Scottini se vivo fosse, seria identificado como um padre da periferia, de uma Igreja em saída, como tanto insiste o papa Francisco.

Por Maria Emerenciana Raia
(Fotos: Arquivo IMC)

O Centro de Assistência Social Jardim Peri, atualmente localizado próximo à Paróquia Nossa Senhora da Penha, no Jardim Peri, São Paulo, é composto também pelas creches Francisco Arcuri e Perizinho. A Creche Francisco Arcuri recebeu esse título desde sua fundação, simplesmente por estar localizada na rua de mesmo nome.

A diretoria do Centro Social solicitou à prefeitura da cidade de São Paulo, há cinco anos, a mudança de nome de Francisco Arcuri para Creche Gelindo Scottini. A solicitação foi atendida, e desde fevereiro de 2021, a creche passou a ter essa denominação.

A homenagem é justíssima, porque foi padre Gelindo Scottini, missionário da Consolata, quem fundou a creche, em terreno e estrutura cedidos pela Mitra Arquidiocesana de São Paulo, onde se encontravam as irmãs franciscanas e depois, as Missionárias de Madre Teresa de Calcutá. A Creche foi inaugurada para 60 crianças em janeiro de 1990. Padre Gelindo, então vigário paroquial e encarregado das obras sociais da Paróquia Nossa Senhora da Penha, viu a necessidade de abrir uma creche para atender à demanda de muitas famílias carentes, cujas mães não tinham onde deixar as crianças para poderem trabalhar.

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Quem foi padre Gelindo?
Padre Gelindo era catarinense de Rio do Oeste, nascido em 1º de outubro de 1933. Missionário da Consolata, foi ordenado sacerdote em 13 de dezembro de 1959. De janeiro de 1960 a 1965 trabalhou como assistente e professor no Seminário São Francisco Xavier, em Rio do Oeste, além de exercer serviço pastoral em numerosas capelas.

Em 1965, o Instituto Missões Consolata vivia o contexto dos 25 anos de chegada ao Brasil e pensou em enviar dois missionários brasileiros para Moçambique. Junto com padre Vidal Moratelli, lá foi padre Gelindo Scottini, onde permaneceu por nove anos, até 1974.

De 1982 a 1986 foi pároco da igreja Nossa Senhora da Penha, no Jardim Peri, e a partir de 1986, passou a ser vigário paroquial e encarregado das obras sociais, até 1993.

Anai Elena Rezende atualmente é professora na Creche Jardim Peri. Conheceu padre Gelindo em 1987 e trabalhou com ele nos anos 90, na Paróquia Nossa Senhora da Penha, onde exercia a função de secretária. Etelvino Balsan era o pároco e tinham ainda a companhia do padre José Girardi. “Ele tinha um carinho enorme com as crianças, as homilias dele eram especiais, voltadas para a criançada. Sempre tinha uma história para contar. As celebrações dele eram longas, mas nunca cansativas, eram muito dinâmicas”, afirma Anai.

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E o dia a dia de padre Gelindo, como era?
A diretora da Creche Jardim Peri, mais conhecida como Perizinho, Claudia Correa Belino Campos tinha 19 anos quando começou a trabalhar com padre Gelindo, em junho de 1990.

“Na época que eu entrei, padre Gelindo resolvia tudo: banco, prefeitura, não sobrava nada para fazermos na rua, ele fazia tudo. Tinha uma Brasília branca que rodava por todo lugar. Padre Etelvino se preocupava bem pouco com o Centro Social, tinha confiança plena no trabalho dele. O contato do padre Gelindo com as funcionárias e crianças era muito grande”, afirma Claudia. “Pedia dinheiro para amigos na Alemanha, como um padre chamado Benno (foto). Foi esse padre que comprou uma Parati para ele quando roubaram a Brasília (recuperada tempos depois) Mikael era um jovem alemão que também o ajudava financeiramente e veio visitar o Centro (na foto com a Brasília)”, conta Claudia.

Em março de 2001, padre Gelindo foi passar uns dias numa casa de repouso na cidade de Praia Grande, litoral de São Paulo. No dia 19 de março, não se sentiu bem. Foi levado ao Hospital Ana Costa, em Santos, onde faleceu no dia 22. Tinha 67 anos de idade, 47 de profissão religiosa e 41 de sacerdócio.

* Maria Emerenciana Raia é editora da revista Missões.

Homem das relocações

por Salvador Medina

O padre Gelindo Scottini, missionário da Consolata brasileiro era um camponês de família numerosa e religiosa, bem constituída e trabalhadora, honesta e caridosa. Esse “humus”, humildade, impregnado no ser pelo contato com a mãe terra, fazia parte do jeito engraçado e bondoso, trabalhador e criativo, enérgico e teimoso, solidário e caridoso de Gelindo, filho, irmão, amigo, cidadão e missionário.

A relação consigo mesmo
Gelindo se manifestava bem identificado e sereno, autêntico e transparente, alegre e brincalhão. O bom humor o habitava e ainda na enfermidade encontrava a piada para driblar a dor.

A relação com os outros
Com seu jeitinho amável e brincalhão, fazia e cultivava a amizade com todo tipo de pessoa, homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e autoridades, ricos e pobres, famílias e comunidades. Como bom vizinho dos gaúchos, desfrutava dos churrascos e da caipirinha, como boa maneira de socializar. Gostava e gerava encontros sociais, recreativos, religiosos e solidários. Além de amigo, era compassivo e misericordioso com os mais pobres e esquecidos, preferencialmente com as crianças.

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A relação com o meio ambiente
Gostava do jardim para enfeitar o ambiente e da horta para o cultivo das verduras que comíamos a vontade. Suas raízes camponesas se expressavam em flores, frutos e verduras, manifestações todas de amor, respeito e quase veneração pela criação. No final dos anos, já gasto, como gostava de dizer de si mesmo, esclerosado, vítima da diabetes e obrigado a usar cadeira de rodas, não parou. Colocou a prova sua criatividade e lucidez mental para fazer do Castelinho (centro de formação do Instituto Missões Consolata na zona norte de São Paulo) seu habitat terapêutico, com longas vielas para passear numa carrocinha oferecida pelos donos do Supermercado Andorinha, benfeitores generosos de suas obras sociais. Assim assistia e coordenava todas as atividades materiais no Centro, como os encontros, retiros, convivências e cursos de evangelização, alguns deles de longa duração e nutrida participação. Gelindo sempre dava um jeito, dizíamos todos.

* Salvador Medina, imc, é missionário na Colômbia.
Artigo Publicado na Edição Julho/Agosto 2021 da Revista Missões