“A missão é de Deus”, afirma cardeal filipino, Luís Tagle

Os missionários da Consolata participantes do XIII Capítulo Geral que acontece em Roma, receberam na manhã desta terça-feira, 23, o cardeal filipino, dom Luís Antônio G. Tagle, presidente da Caritas Internacional, para uma jornada de reflexão teológica e missionária sobre os Apóstolos Paulo e Barnabé.

Texto e fotos por Jaime Carlos Patias *

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Ordenado bispo em 2001 e criado cardeal em 2012, pelo papa Bento XVI, Tagle é um dos mais importantes teólogos da Ásia, autor de livros como: “Gente de Páscoa”, “Recontar Jesus” e “Aprendi dos últimos”.

“Sinto-me em família”, disse o bispo ao saudar a assembleia capitular composta de 45 missionários representante de 18 regiões do Instituto Missões Consolata na Europa, África, América e Ásia.

Diante das profundas e rápidas mudanças do mundo globalizado, o presidente da Caritas Internacional defende uma contínua reflexão sobre a missão evangelizadora da Igreja. “Quando se ouve falar dos 65 milhões de refugiados em todo o mundo, dos 20 milhões de pessoas que devido à seca em algumas partes da África, sofrendo fome, consequência das guerras, o crescente ódio contra os estrangeiros e o mau uso da religião, somente para citar alguns, não podemos esperar que a Igreja e sua missão continue sendo o mesmo ‘negócio’ de sempre”.

Segundo o cardeal, “a Nova Evangelização é urgente e exige novo ardor, novos métodos e novas expressões”. Nesse sentido, destacou os impulsos missionários vindos do Papa Francisco com o seu apelo por “uma Igreja em saída para as periferias existenciais”. Contudo, pediu que as expressões do Papa não se transformem apenas em slogan ou fórmulas repetidas constantemente, mas que é preciso “trazê-las para a reflexão teológica concreta nas diferentes experiências de missão”.

DSC_0024Sobre Paulo e Barnabé, apóstolos inspiradores do XIII Capítolo Geral em curso, cardeal Tagle sublinou a “sua sabedoria missionária”. Para isso citou “dez princípios missionários de Paulo”, segundo o missiólogo padre James Kroeger, missionário Maryknoll (Bíblia hoje 2009). 1) uma profunda consciência da vocação: a missão tem sua origem no chamado de Deus; 2) empenho radical por Cristo: a missão supõe uma vida totalmente centrada em Cristo; 3) aceitação voluntária do sofrimento: a vulnerabilidade e a aceitação da cruz dá autenticidade à missão; 4) métodologia missionária: a missão exige criatividade, inculturação e novas abordagens; 5) urgente anúncio do Evangelho: a missão não perdeu sua urgência no mundo contemporâneo; 6) um profundo amor pela Igreja: a missão e o amor das pessoas que constituem a Igreja andam de mãos dadas; 7) uma estreita cooperação entre os seus membros: todo o ministério apostólico é reforçado pelos esforços colaborativos; 8) compromisso de transformar a sociedade: a mensagem do Evangelho, a dignidade humana e a igualdade, se abraçaram levando à transformação social; 9) estilo de vida eficaz e exemplar: o testemunho de vida é a primeira e, muitas vezes, o anúncio mais eficaz do Evangelho; 10) o abandono total na providência de Deus: a missão permanece sempre plano de Deus e os evangelizadores devem ser humildes instrumentos cheio de fé em Deus”.

Esta síntese do padre Kroeger “nos permite concentrar em alguns aspectos específicos da sabedoria missionária de Paulo e Barnabé, e poderia contribuir para uma Igreja em saída hoje”.

Oração, jejum, comunidade e organização

Os apóstolos Paulo e Barnabé, realizaram a missão de Deus com a prática da oração e do jejum. Com esses princípios fundaram e formaram comunidades. “Precisamos de oração e jejum. A verdadeira oração comunitária e o jejum tornam possível a organização da comunidade e a missão de ser inspirado e dirigidos pelo Espírito Santo”.

Citando a amizade entre Paulo e Barnabé, o cardeal de Manila destacou, a necessidade de “reconhecermos a força e a fragilidade das relações, sem porém, destruir a Missão”.
Ao comentar a separação entre Paulo e Barnabé, o bispo observou que o livro dos Atos dos Apóstolos reconhece “a fragilidade da comunhão” entre os dois apóstolos, mas também “mostra que a separação por qualquer motivo não deve destruir a missão comum. Embora o trabalho seja feito separadamente, é o mesmo trabalho. Nós aprendemos que a comunhão significa preservar o que temos em comum e não permitir que as diferenças pessoais arruinem o compromisso com os objetivos comuns”. Os dois apóstolos sabiam que a pregação “da Palavra de Deus deveria continuar, mesmo que de maneiras diferentes”, sublinhou dom Tagle.

 

Discernir as formas surpreendentes do Espírito

“Barnabé e Paulo experimentam o Espírito dizendo ‘não’ a seus planos pessoais”. Essa atitude os levou a acolher “o ‘sim’ do Espírito”.

DSC_0013Em sua reflexão, o cardeal de Manila alertou: “É difícil aceitar um ‘não’ de Deus. Mas é a maneira de nos lembrar que a missão é de Deus e não nossa. Os missionários precisam leveza de coração, saudável senso de humor, uma santa liberdade ou a ‘indiferença’ os fará aceitar pacificamente as portas fechadas. Não podemos nos agarrar em nossas ideias e projetos como se fosse o único caminho disponível”.

Diante das “portas fechadas”, cardeal Tagle pede para não ficarmos “com raiva ou amargos”. Em vez disso, “devemos nos sentir impelidos a experimentar as portas que o Espírito deseja abrir para nós. A Igreja em saída está pronto a experimentar portas, telhados e estradas que o Espírito nos oferece, mas que ignoramos por estarmos fixos em nossa maneira de ver as coisas. Isso requer uma espiritualidade missionário de humildade que continua a se surpreender com o que Deus está fazendo”.

“A missão é um ato de fé na presença permanente do Senhor ressuscitado”. Esta fé cura o orgulho que destrói a missão e os missionários. “A fé no Ressuscitado salva e guia a missão”, concluiu citando o seu lema episcopal: "Dominus est" (É o Senhor).

Com elevado senso de humor, o cardeal respondeu à vários questionamentos da assembleia insistindo na “leveza pessoal e institucional”, condição básica para torar possível “uma Igreja ou uma congregação em saída missionária”.

A participação do cardeal Tagle incluiu a celebração Eucarística e concluiu com o jantar.

A programação do XIII Capítulo Geral do IMC que começou em 22 de maio, se estende até o dia 20 de junho, na celebração da Festa de Nossa Senhora Consolata, a Padroeira da Congregação.

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* Jaime Carlos Patias, imc,  é secretário nacional da Pontifícia União Missionária.
(CC BY 3.0 BR)